terça-feira, 25 de maio de 2010

Campanha sob escolta

Campanha sob escolta
Jurado de morte, o deputado carioca Marcelo Freixo precisa de proteção armada na busca de votos para a reeleição
Wilson Araújo

Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/74665_CAMPANHA+SOB+ESCOLTA

SEGURANÇA
Policiais seguem Freixo, caçado pela máfia das milícias



O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), 43 anos, não bota o pé fora de casa sem a companhia de uma comitiva formada por pelo menos cinco homens atentos, carregando caixas parecidas com as usadas para transportar instrumentos musicais. Em vez de violão ou violino, porém, as caixas contêm armas de grosso calibre. E o séquito que acompanha o deputado é formado por policiais e agentes penitenciários escolhidos a dedo para sua proteção. Jurado de morte, Freixo é candidato à reeleição a deputado no Rio de Janeiro e não poderá fazer campanha nas ruas. Na zona oeste da cidade, região que concentra 35% do eleitorado carioca, nem seus militantes poderão pedir votos. Milicianos já avisaram que quem ousar vai “levar chumbo”.

Freixo só se desloca pela cidade em carro blindado e uma viatura da PM passa as noites de plantão na porta de sua casa. Ele é perseguido por ter atuado contra o crime organizado no Rio, em especial por combater a máfia das milícias, que domina 40% das 1.200 comunidades carentes do Estado. “Vamos utilizar a internet e outras ferramentas virtuais para fazer nossa proposta chegar à população”, diz ele, convicto de que não pode expor ninguém ao perigo nem mesmo a si próprio. “Não quero ser um herói morto”. O Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública já abortou dois planos para matá-lo.

O poder das milícias que marcaram Freixo para morrer pode ser medido por seu faturamento. Elas arrecadam mais de R$ 200 mil diários somente com o controle do transporte alternativo. Em seis meses de investigação, a CPI que Freixo liderou na Assembleia carioca levou para a cadeia quase 300 integrantes desses grupos criminosos. Ela também desbaratou o esquema fraudulento do auxílio-educação, praticado por alguns deputados, que embolsavam as cotas de R$ 400 concedidos a cada dependente de funcionário matriculado em escola particular. Freixo ainda esteve à frente do processo de cassação do ex-chefe de Polícia do Rio deputado Álvaro Lins (PMDB), envolvido com a máfia dos caça-níqueis.

“Estamos assistindo a uma violação do princípio democrático que implica o direito de cada um, seja ele deputado ou não”, revolta-se o sociólogo carioca Gláucio Soares, do Instituto de Pesquisas Universitárias (Iuperj). Fazer campanha pela internet é, por enquanto, a única alternativa de Freixo. O presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos, Carlos Manhanelli, não arrisca prever que resultado o deputado poderá conseguir com uma campanha desse tipo: “Nunca vimos uma coisa dessas antes”, diz ele.

“Vamos utilizar a internet para divulgar a nossa proposta”
Marcelo Freixo, deputado estadual (PSOL-RJ)

terça-feira, 11 de maio de 2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

NOTA DE CHICO ALENCAR SOBRE A CRISE NO PSOL.





Encaminho aos querido(a)s camaradas minha resposta à Nota de Esclarecimento
de alguns da Executiva Nacional, que recebi ontem. Se acharem conveniente,
podem espalhar, já que o Jacinto Índio, apesar de trabalhar na Liderança e
ter grande inserção internética no partido, não o fará, infelizmente.



*Caros dirigentes e camaradas do PSOL Heloísa Helena, Edilson, Elias,
Jefferson, Mário Agra, Pedro Fuentes e Robaina:***



Recebi sua Nota de Esclarecimento e agradeço a consideração para com
esse mandato do partido. Aprendi na já longa vida política que sem direção
coletiva não há organização que prospere e que sem diálogo democrático e
respeito às decisões da maioria, quando o consenso for impossível, nada
caminha. Quanto à sua Nota de Esclarecimento, pondero que:



1) uma convocação de reunião da Executiva, que em circunstâncias normais não
causaria polêmica, pode ser feita, com toda a legitimidade, por decisão da
maioria (a mesma que garante, estatutariamente, a convocação do Diretório -
cap. 9, art. 41 - e o quorum para deliberações - cap. 18, art. 81 do nosso
Estatuto). Sem isso, uma eventual minoria nessa instância teria poder de
paralisar o partido, o que não é razoável e, suponho e desejo, não é o
objetivo de vocês; esperava que, ao questionar esta convocação do dia
31.03, vs. sugerissem outra data, quando "vencida plenamente a segunda
etapa da III Conferência Eleitoral". Ficou o vazio e reitero: que data
vs. propõem? Sim, é urgente "debruçar-se sobre as eventuais divergências
ocorridas no transcorrer do processo nos municípios e nos estados". Por
isso, considerando que a Conferência Nacional está prevista para 10/11 de
abril, a reunião é essencial e urgente. Suponho e desejo que não haja
decisão de não participar mais de encontros de um colegiado por não se ter
maioria nele, adotando postura (não declarada) de fração;



2) não ouvi nem li ninguém falando ou escrevendo que o site da Liderança do
PSOL "foi retirado do ar". O que causou e causa indignação é que o site da
Bancada na Câmara dos Deputados (com sua rica e respeitosa
diversidade) sofreu alteração das senhas no domínio do Registro.br/Comitê
Gestor de Internet no Brasil - à revelia dos deputados - aos 50 minutos e 28
segundos do dia 25/03/10 (mesmo dia da ação sobre o site do PSOL Nacional,
que é "de responsabilidade do Diretório Nacional" - como define o cap. 14,
art. 73 do nosso Estatuto). Modificações feitas por HHLMO -
heloisa.psol@uol.com.br (confirmado por registro.br). Trata-se de uma
intervenção injustificável e disparatada, que coloca a comunicação virtual
da Liderança não fora do ar, mas sob inexplicável tutela. Nosso site
jamais fez qq. referência à pré-candidatura A, B ou C, exceto para informar
dos debates entre os três companheiros (que, lembremo-nos, transcorreram em
alto nível político, contrastando com certos movimentos e percepções de
agora);



3) entendo que, ao invés dessas iniciativas abruptas sobre sites, seria mais
saudável usar os próprios instrumentos de comunicação do partido para
questionar afirmações tais ou quais; ou mesmo sugerir, neste período mais
tenso pré-Conferência, a partir de consultas prévias, um mediador de
conteúdos relativos a ela, obviamente ouvindo as outras partes (ao invés de
colocar nosso competente e independente José Luis Fevereiro nessa
situação desconfortável, que o levou, como era de se esperar, a declinar do
convite unilateral);



4) o caminho é óbvio: conferir os dados e a fidedignidade de todos os
registros de encontros de base sobre os quais foram levantadas sérias
dúvidas e suspeitas - consola saber que a maioria dos estados não têm
questionamentos graves -, reconhecer possíveis irregularidades, legitimar as
delegações autênticas e representativas e decidir, democraticamente,
diretrizes de programa de governo e candidato. Respeito à vontade real e
comprovada das bases, à Direção e ao Estatuto pactuado que nos rege, para ao
menos interferirmos como esquerda coerente no pleito nacional deste ano, que
suponho ainda ser do interesse de todos os que não se sentem contemplados
pelos projetos de PT/PMDB/PSDB/DEM/PV (e seus caudatários) em disputa;



5) por fim, um desabafo pessoal (e sempre político): parece um pesadelo - e
é uma irresponsabilidade para com nosso povo - a quadra de disputa
interna fratricida em que alguns de nós estamos colocando o PSOL, abrindo
mão das mediações mínimas necessárias para tocar o partido às vésperas de um
duro embate eleitoral - refiro-me ao geral, da sociedade, que é o que mais
conta. Às vezes fico com a impressão de que alguns vícios dos nossos
inimigos de classe foram introjetadas na nossa estrutura, para
inviabilizá-la. Saint Just, jacobino na Revolução Francesa, desencantado
com os caminhos do processo ao qual doara sua vida, disse que "todas as
artes produziram maravilhas, menos a arte de governar, que só produziu
monstros". Se caminhamos assim no (des)governo do PSOL, o que faremos no
exercício do poder público? Logo esses problemas e a forma desajuizada de
tratá-los vão repercutir fora (o que ainda não aconteceu pela nossa
irrelevância política atual), e ficará difícil falar de "um novo partido
contra a velha política";



6) sinceramente, espero MUITO que vocês, parte tão importante do PSOL, não
se afastem dos foruns de deliberação do partido, e voltem a somar esforços
nessa construção tão difícil quanto necessária - ainda acreditamos! - para o
povo trabalhador brasileiro e para a re-significação de um
projeto libertário, que não pode dispensar nenhum(a) lutador(a) social. Nem
ser jogado fora dessa maneira autofágica, que as pessoas comuns jamais
entenderão.



Saudações socialistas e... teimosamente pascais (que ensina que a MORTE não
tem a última palavra),



Brasília, quarta-feira da Semana Santa, 31 de março de 2010



Chico Alencar

sábado, 27 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

As incoerências e contradições de Martiniano Cavalcante

As incoerências e contradições de Martiniano Cavalcante

Rui Polly
ruipolly@hotmail.com

Quando assumiu a pré-candidatura à presidência da República, o companheiro Martiniano Cavalcante lançou um manifesto apresentando as idéias e propostas que, desde então, vem defendendo nos debates realizados pelo partido em todo país. Apresenta-se como o único pré-candidato identificado com os acúmulos políticos alcançados pelo PSOL nos últimos anos, enquanto critica as demais pré-candidaturas como representantes de forças que pretendem dar "um perfil antagônico" ao que o PSOL teve até agora.

Os companheiros Plínio e Babá, segundo ele "buscam, conscientemente, o isolamento e pretendem dirigir a campanha e o discurso do PSOL apenas para a vanguarda socialista". Para Martiniano, a correlação de forças desfavorável não permite posições radicais. Assim, afirma não ser possível apresentar uma "plataforma de caráter diretamente socialista por pura impossibilidade das condições concretas". Em vez disso, propõe um "um programa anticapitalista com orientação socialista".

À parte a forma questionável como tem se esforçado para elevar a temperatura do debate, não há o que questionar quanto à constatação das condições adversas enfrentadas pelo partido. Todos nós conhecemos as dificuldades e adversidades da conjuntura atual, mas também sabemos que essa constatação por si só é insuficiente, uma vez que dela podem ser derivadas diferentes análises e, portanto, diferentes táticas políticas. Do mesmo modo, a sua definição de programa é correta, porém é ainda abstrata, já que pode significar plataformas não só diferentes, mas até mesmo contraditórias.

Mas a insistência de Martiniano em enfatizar a correlação de forças desfavorável merece atenção, pois tem sido um elemento-chave de seu discurso, um verdadeiro parâmetro que define o que deve e o que deve constar no programa do partido. Todavia, prestando atenção no conteúdo de seu manifesto e suas intervenções, a conclusão a que chegamos é que serve muito mais para justificar as suas propostas do que apontar supostos equívocos "vanguardistas" de Plínio e Babá.

Possibilidades e incoerências

No "programa anticapitalista de orientação socialista" de Martiniano não há lugar para propostas de estatização, pois segundo ele "devemos ter clara consciência de que a correlação de forças não nos permite apresentar propostas gerais de estatização de setores econômicos, sejam da indústria ou dos serviços como educação e saúde". Com relação à estatização das indústrias, seria interessante saber como Martiniano se posiciona sobre a bandeira da reestatização de empresas como a Vale e a Embraer. E se não deveriam ser nacionalizadas empresas de setores estratégicos como a agroindústria de sementes, hoje um setor oligopolizado sob controle de transnacionais da biotecnologia, que não só tem colocado em risco a soberania e a segurança alimentar da população brasileira, mas também ameaçado a própria existência do campesinato brasileiro, com os projetos apresentados pela bancada ruralista, como os vários projetos que pretendem modificar a Lei de Proteção aos Cultivares.

Mas o que espanta mesmo é a sua oposição categórica a qualquer proposta de estatização dos setores da saúde e educação que, junto a outros serviços públicos, estão em processo de sucateamento e sob ameaça de "privatização branca" pelo projeto de lei das fundações estatais de direito privado, que ainda tramita no Congresso Nacional. Um projeto de lei que também ataca os direitos dos funcionários públicos, retirando-lhes a estabilidade, entre outras coisas. Não seria propício colocar esse debate em um momento em que Lula e Dilma enfatizam o papel do Estado, despejando dezenas de bilhões de reais de dinheiro público nos caixas de empresas em dificuldades ou para promover processos de fusão e aquisição de conglomerados? Esta é uma questão que deve ser debatida pelo partido, e não ser descartada sem discussão e de maneira tão categórica, como faz Martiniano. Lembremos que a estatização de setores estratégicos da economia ou de serviços públicos não é uma bandeira diretamente socialista, mas democrática.

Tais propostas, nos diz, serviriam apenas para "chocar" a população e isso seria ruim. Em vez de provocar "choques", Martiniano prefere fazer "um diálogo mediado e pedagógico com a população". Entretanto, estabelecer tal diálogo pedagógico significa precisamente buscar o convencimento político da população, conquistá-la para propostas que achamos necessárias e viáveis, embora nas circunstâncias dadas a sua implementação não seja possível. Mas sabemos que um elemento central na correlação de forças é justamente a subjetividade, a consciência política da classe trabalhadora e das camadas exploradas e oprimidas. E é esse o grande desafio dos socialistas no mundo contemporâneo: as condições objetivas estão dadas, faltam as condições subjetivas.

Se nos limitássemos a apresentar propostas "executáveis" aqui e agora ou aceitáveis facilmente pelo senso comum, não haveria necessidade de um "um diálogo mediado e pedagógico com a população". Pois o sentido e a necessidade de estabelecê-lo, discutindo e argumentando com paciência e clareza, consiste em apresentar propostas e soluções que são objetivamente viáveis e realizáveis, mas que só poderão ser executadas quando a correlação de forças mudar, isto é, quando a maioria da população estiver politicamente ganha.

É aqui que se manifestam os diferentes realismos políticos. Há o realismo político dos que acham que a política é a "arte do possível", que invariavelmente se traduz em mera adaptação à adversidade, na defesa do que é possível ser colocado em prática, rebaixando a práxis política ao nível do que é aceitável pelo senso comum. E há um outro, o realismo político revolucionário que parte de uma análise rigorosa da realidade e das condições objetivas e subjetivas, não para descobrir o que é possível ser feito ou o que é aceitável para o senso comum. Mas para descobrir quais elos devem ser agarrados para o avanço da luta de classes e da consciência de classe. Em vez de uma "arte do possível", o realismo revolucionário compreende a práxis política como a arte de criar novas possibilidades que permitam modificar a correlação de forças.

Aliás, quando o companheiro Plínio se refere a provocar um "choque" nas pessoas se refere exatamente a esse sentido pedagógico, de suscitar a reflexão e o avanço político das consciências através de uma relação dialógica e dialética com o senso comum. Capaz de incidir sobre a subjetividade e, portanto, sobre a própria correlação de forças.
Não defender propostas sob a justificativa de que a correlação de forças "não permite" é uma atitude que se esquiva da responsabilidade de remar contra a maré quando é preciso, cedendo sem luta às idéias da classe dominante presentes no senso comum e, assim, se abstém de tentar superar as condições políticas adversas através de "um diálogo mediado e pedagógico"...

É verdade que Martiniano apresenta uma formulação curiosa, de "desenvolver a linha da sintonia fina entre as grandes mudanças políticas e a aplicação de medidas democráticas profundas e incontestáveis". Uma formulação tão pomposa quanto vazia, pois pode significar qualquer coisa e nada ao mesmo tempo. Uma mera frase de efeito.

Martiniano e o Estado

Surpreendentemente, ao mesmo tempo em que se opõe peremptoriamente a bandeiras democráticas como a estatização de serviços, Martiniano defende propostas que não só a "correlação de forças não permite", mas que dificilmente podem ser consideradas viáveis. Destaco a idéia de "mudança deste caráter do Estado como instrumento privado a serviço de uma elite econômica e política, transformando-o, de fato, em instrumento a serviço da maioria do povo e por ele controlado".

Para tanto, sugere uma proposta de "regulamentação do exercício da democracia direta prevista na Constituição", além de defender "o fim do financiamento privado de campanha e a democratização dos recursos públicos e do tempo de propaganda no rádio e televisão". Também aponta a necessidade de "apresentar propostas concretas que fortaleçam os conselhos e o controle social sobre o aparelho do Estado". E, finalmente, para "implementar esta ruptura do círculo de ferro que aprisiona de maneira absoluta o poder político puramente aos interesses do capital, acredito que devemos defender uma Constituinte exclusiva para tratar da reforma política convocada através de um plebiscito nacional".

Essas passagens condensam inúmeras concepções que são equivocadas e ilusórias. São temas complexos que exigem uma discussão conceitual que não cabe aqui.

Atentemos para o fato de que a proposta de Martiniano não é simplesmente de propor reformas para a democratização do Estado. Ele quer mudar o caráter do próprio Estado capitalista. É, assim, uma proposta de claro sentido estratégico. Intriga-nos que apresente tal proposta, pois é de se supor que considere tal proposta compatível com a atual correlação de forças.

Mas ainda não é este o problema central. Não consideramos que tal proposta seja possível de ser levada a cabo, pelo fato de que a questão central do Estado não é simplesmente de que esteja sendo usurpado para servir aos interesses do capital. Se isso fosse verdade, deveríamos resgatar a bandeira de "desprivatizar o Estado" que Lula e o PT defenderam por tanto tempo.

Como socialistas devemos defender todas e quaisquer medidas ou reformas que garantam mais democracia ou que se choquem com os interesses do capital. Assim, defendemos processos como plebiscitos ou referendos, não porque tenhamos ilusão em tais mecanismos, mas porque possibilitam um debate político mais amplo, permitem aos socialistas intervir com suas posições e são mais democráticos. Mas não é possível chamá-los de mecanismos de "democracia direta", atribuindo-lhes uma qualidade inerente que não é real. Do mesmo modo, apoiar o financiamento público de campanhas pode coibir ou limitar, mas não impede de modo algum o apoio ostensivo das grandes corporações aos políticos burgueses, até porque estes ainda dispõem do apoio da mídia corporativa com seus canais de TV, rádio, jornais e revistas, além do apoio de outras instituições estatais privadas.

Quanto à ideia de "fortalecer os conselhos" trata-se de um erro crasso. Os conselhos atuais, deliberativos e consultivos, tão exaltados pelo governo como exemplos de "democracia representativa", talvez com raras exceções, são um pouco mais que uma farsa. Um estudo que fizemos há um ano abrangendo a maior parte dos conselhos e órgãos colegiados federais demonstrou que todo o arcabouço desse sistema de "participação social" é apenas uma fachada democrática para encobrir processos decisórios controlados pelo governo e com enorme influência dos empresários. A participação da sociedade civil é limitada, e a sua própria representação merece ser colocada em xeque. O que é preciso é um debate amplo sobre novos espaços de decisão, que sejam realmente democráticos e garantam a participação popular.

Mas mesmo que todas as propostas de Martiniano fossem concretizadas, ainda assim não haveria uma mudança no caráter capitalista do Estado. Apoiados em uma leitura superficial e impressionista das experiências dos governos de esquerda, intelectuais como o petista Emir Sader definem o Estado como um "campo da luta de classes" cuja natureza de classe poderia ser modificada. Que a luta de classes se reflete, permeia e produz modificações na estrutura do Estado, é inegável. Mas há um limite à permeabilidade da materialidade institucional do Estado capitalista. E é o próprio Martiniano que nos indica isso, pois em seu manifesto mudar o caráter do Estado significa um "controle social" vago e indefinido. Assim, podemos concluir que esse Estado transformado – instrumento a serviço da maioria do povo – ainda é um Estado apartado da sociedade, uma vez que não é a expressão e a materialização da auto-organização da classe trabalhadora, mas um instrumento que a ela serviria e por ela seria "controlado", numa relação de exterioridade e sobreposição.

Outra incoerência gritante é a defesa de convocação de uma Assembléia Constituinte, debate que já foi levantado no nosso partido há alguns anos. A grande incoerência de Martiniano é defender uma Constituinte ao mesmo tempo em que insiste em nos lembrar que a correlação de forças nos é desfavorável. Um processo constituinte é um reordenamento jurídico-político do Estado burguês que reflete as circunstâncias em que ocorre, podendo resultar em Constituições mais conservadoras ou mais democráticas e avançadas, dependendo exatamente da correlação de forças na sociedade. A convocação da Constituinte de 1988 ocorreu em um momento distinto, quando o país acabava de sair de uma ditadura militar, quando havia fortes e combativos movimentos sociais e um PT que ainda era radical. Essa situação levou, inclusive, as classes dominantes a convocarem não uma Constituinte exclusiva, mas um Congresso Constituinte. O seu resultado expressou essa limitação importante e, ao mesmo tempo, o "espírito da época". E é sintomático que naquela constituinte alguns políticos de direita e centro-direita defenderam propostas que hoje os parlamentares do PT recusariam por serem "radicais". Uma Assembléia Constituinte hoje significaria um retrocesso. Por isso, não tem qualquer sentido a proposta de Martiniano.

Em outro momento, ao discutir política econômica, Martiniano afirma que a própria crise internacional "desencadeada em 2008 nos dá excelente condição para defender uma intervenção mais forte do Estado na economia, uma vez que os grandes capitalistas do mundo inteiro socorreram-se, despudoradamente, dos recursos públicos para se salvarem da quebradeira geral". Mais uma vez esse é o argumento que não só petistas como Emir Sader tem defendido, mas o próprio governo Lula. Sabemos que a posição de Martiniano é oposta à do governo Lula e seus ideólogos. Mas caberia, então, esclarecer o que ele entende por "intervenção mais forte" do Estado.

Além do mais, pensamos ser temerário adotar o discurso de "fortalecer o Estado". Como socialistas, a nossa perspectiva estratégica é a de construir uma sociedade socialista a partir de baixo. O que pressupõe a substituição do Estado capitalista, e não a sua reforma. Não porque não seja desejável, mas porque a materialidade institucional do Estado capitalista é incompatível com a idéia de controle e gestão de todos os aspectos da vida social pela classe trabalhadora, pelos camponeses e por outros setores sociais explorados e oprimidos.

Como afirma o programa do PSOL:

"Uma alternativa global para o país deve ser construída via um intenso processo de acumulação de forças e somente pode ser conquistada com um enfrentamento revolucionário contra a ordem capitalista estabelecida. Nesta perspectiva é fundamental impulsionar, especialmente durante os processos de luta, o desenvolvimento de organismos de auto-organização da classe trabalhadora, verdadeiros organismos de contra-poder". (grifo nosso)

Coerente com essa visão, a nossa meta não é fortalecer, mas enfraquecer o Estado capitalista com o objetivo de substituí-lo por um outro tipo de Estado que, segundo Lenin, seria um semi-Estado alicerçado justamente nos "organismos de contra-poder" citados no programa. O que devemos é fortalecer, sim, os movimentos sociais e a auto-organização popular. Em uma eventual vitória eleitoral do PSOL, deveríamos usar a máquina estatal, tensionando-a até o limite, para atacar frontalmente os interesses do capital, enfraquecer o poder do Estado capitalista e fortalecer e empoderar as organizações de todos os explorados e oprimidos.

As propostas de Martiniano, entretanto, nos afastam da visão presente no nosso programa partidário. Caberia uma pergunta. Não levaria também o partido a assumir um perfil antagônico àquele expresso no seu programa?

A política ambiental de Martiniano e Marina Silva

Pelo manifesto e pelas intervenções de Martiniano percebe-se que o companheiro não é muito afeito a fazer auto-crítica. Nossas opiniões foram apresentadas em um documento ("Marina Silva e PSOL: uma aliança insustentável"), e não iremos repeti-las aqui. Apenas agregar alguns argumentos brevemente.

Sobre o caso Marina Silva, Martiniano diz:

" (...) Não escolhemos o caminho simplista e cômodo de menosprezar aquela ruptura incompleta com o PT, rotulando-a de ecocapitalista e nos autoproclamando ecossocialistas. Procuramos dialogar com o movimento desencadeado por ela, com sua simbologia de política limpa vinculada à importantíssima questão ambiental e com a base social que ela representa. Propusemos que ela se juntasse a nós para combater, com coligação de esquerda, a polarização PT x PSDB. Esta atuação do PSOL demonstrou a todo o país, com fatos e não com discursos professorais, que ela e o seu PV preferiram se aproximar dos tucanos e dos demos, deixando-nos em posição privilegiada para combatê-la".

Mais uma vez estamos diante de sofismas e subterfúgios. Não foi o caso de menosprezo da ruptura de Marina Silva com o PT, mesmo porque a senadora rompe com o PT após iniciar discussões com o PV. Quando rompe já havia feito a escolha. Portanto, não foi uma ruptura inconclusa. Ela rompeu pela direita. E foi então que a Executiva decidiu estabelecer uma discussão com a senadora. Assim, o que ocorreu foi a superestimação daqueles que aprovaram o diálogo com Marina Silva e a ilusão de que se poderia chegar a algum denominador comum com o fisiológico PV.

E o conjunto de pontos apresentados para a discussão programática com o PV também demonstra uma outra questão. Não havia um ponto referente à política ambiental. Sinal de que se aceitava sem discussão as posições de Marina Silva sobre o meio-ambiente. Talvez um sinal de desconhecimento da política ambiental do governo Lula e das políticas que foram adotadas por Marina Silva na condição de Ministra do Meio Ambiente. Mesmo quando a senadora já apontava, ao mesmo tempo em que discutia com o PSOL, a sua intenção de ter Guilherme Leal, um bilionário e um dos donos da Natura, empresa acusada várias vezes de biopirataria, a Executiva Nacional insistiu em sua ilusão.

Mas o argumento final de Martiniano é risível. Afirma que estamos em melhor condição para combater Marina Silva porque a atuação do partido demonstrou que ela preferiu se aliar aos tucanos e demos em vez de coligar com o PSOL. O mínimo que podemos dizer é que se trata de um insulto à inteligência dos militantes. O PV já estava coligado com esses partidos em todo o território nacional. E o país veria o PV se coligar com esses partidos independentemente de qualquer coisa. Martiniano não leva em conta a confusão causada nas fileiras partidárias com a aproximação com Marina Silva e PV. Perdemos tempo precioso em debates internos ásperos que serviram para fragmentar o partido, para escutarmos, a esta altura do campeonato, uma avaliação falaciosa como a que nos apresenta Martiniano.

Martiniano critica Plínio, sem citá-lo, por tê-la chamado de "ecocapitalista". Como Martiniano define a política ambiental de Marina Silva? Como definir uma ex-Ministra que licenciou as usinas hidrelétricas do rio Madeira, que apresentou e conseguiu aprovar a Lei de Concessão de Florestas Públicas, que apoiou e licenciou o projeto de transposição do rio São Francisco, que contraiu um empréstimo programático do Banco Mundial para "aperfeiçoar" o sistema de gestão ambiental brasileiro? Que desmembrou o IBAMA via medida provisória, sem consultar ninguém, e que diante da greve dos funcionários adotou uma postura de enfrentamento aberto sem buscar o diálogo?

A Marina Silva de hoje é, fundamentalmente, a mesma Marina Silva de anos atrás. Cercada por defensores de um ecodesenvolvimento nos marcos do capitalismo. Apoiada por empresários e por ONGs de práticas e políticas questionáveis. Martiniano diz que "devemos aproveitar a campanha eleitoral para propagandear a concepção ecossocialista e expor pedagogicamente a incompatibilidade do sistema capitalista com a sustentabilidade ambiental". Uma intenção louvável. Mas o parágrafo sobre política ambiental apresenta apenas um conjunto de propostas soltas que podem ser encontradas em alguma busca simples no Google ou em qualquer site de qualquer ONG, mesmo de ONGs tucanas.

A única proposta de fato, plausível de ser exposta como parte de um programa de governo, é a ideia de "criação de um grande empresa estatal, nos moldes do que foi a criação da PETROBRAS, que funcione como um centro nacional de pesquisa aplicada e produção sustentável baseada na biodiversidade da Amazônia, do Cerrado e da Mata Atlântica". E defende que "o Brasil assuma a vanguarda mundial na luta por uma economia limpa e sustentável através de uma forte intervenção estatal que leve em conta também a necessidade de um programa nacional de educação ambiental que mobilize as forças do povo brasileiro".

Primeiro, é preciso saber o que ele entende por "produção sustentável", pois pode significar muitas coisas. Afinal, produção para que, para quem e por quem? O que significa uma produção sustentável baseada na biodiversidade dos biomas citados?

Segundo, a abordagem de Martiniano acaba tendo um viés tecnocrático ao achar que a solução está numa estatal que funcione como "um centro nacional de pesquisa aplicada" aos biomas citados. Antes disso, é preciso ter uma análise e uma política para cada um desses biomas. Isso significa levar em conta, em primeiro lugar e fundamentalmente, as comunidades e populações que promovem há muito tempo atividades econômicas adequadas às características dos diversos biomas. Antes de lançar qualquer proposta como essa, não seria o caso de envolver esses setores para, juntos com ambientalistas, técnicos e outros segmentos em uma ampla discussão? De qualquer modo, é preocupante o apego de Martiniano ao Estado. Mais uma vez nos fala de "forte intervenção estatal", mas não cita os indígenas, camponeses, as comunidades e populações com seus conhecimentos tradicionais, nem os moradores das periferias urbanas que são os que tem sido atingidos por barragens, megaprojetos e pelos impactos de uma política econômica predatória e excludente.

Em vez de uma estatal, seria muito mais importante abrir uma discussão em torno de mecanismos que possibilitem incorporar a dimensão ambiental no conjunto das políticas. Afinal, as políticas com impacto socioambiental negativo são formuladas na Casa civil, Ministério de Minas e Energia, Ministério da Agricultura, Secretaria da Pesca, Ministério do Desenvolvimento, Ministério de Ciência e Tecnologia, etc. Esta é uma questão crucial a ser enfrentada por qualquer programa que lute pela sustentabilidade ambiental.

Muitos outros pontos mereciam discussão, mas essa será uma tarefa a ser levada a cabo após a III conferência, quando o partido deverá buscar dialogar e debater com movimentos sociais, ONGs sérias e comprometidas, intelectuais e ambientalistas, para elaborarmos um programa em sintonia com as bandeiras e reivindicações pautadas pela sociedade.


Um programa "anticapitalista com orientação socialista"

Concluindo, são inúmeras as inconsistências e incoerências nas propostas de Martiniano. Suas propostas pecam simultaneamente pelo seu caráter recuado (a "correlação de forças não permite") e pelo caráter ilusório de algumas proposições referentes ao Estado. Como afirmamos no início o mantra da situação política adversa acaba sendo um biombo atrás do qual se escondem propostas que, longe de serem viáveis, contribuem parar desarmar politicamente a classe na medida em que semeia ilusões e falsas soluções.

Assim, a promessa de um programa anticapitalista com orientação socialista não se concretizou. Nem há sequer um esboço de um programa desse tipo. Pelo contrário, se a III Conferência Nacional aprovar um programa baseado nas propostas apresentados por Martiniano significará, aí sim, a adoção de um perfil político antagônico ao expresso no programa do PSOL. Certamente, como um dos fundadores do partido, Martiniano deve se lembrar do conteúdo programático aprovado em 2004.

Não temos dúvida de que será uma eleição extremamente difícil, em uma conjuntura complexa. Uma eleição marcada pelo consenso em torno do modelo de desenvolvimento de um governo Lula que além de contar com índices de popularidade altíssimos, tentará rebaixar o debate político a uma mera comparação de "quem fez mais". Dilma se apresentará como a única capaz de continuar a obra do "mestre". Serra tentará se credenciar como melhor administrador e se fará críticas ao governo Lula, não atacará os fundamentos da sua política econômica e seu modelo de desenvolvimento.

Romper esse cerco será um enorme desafio. Não temos dúvida de que podemos rompê-lo, mas isso exigirá uma intervenção qualitativa, com argumentos capazes de desconstruir esse modelo de desenvolvimento e com um programa que ao mesmo tempo incida sobre as reivindicações e necessidades da população brasileira e busque resgatar o projeto socialista, recolocando-o no debate político nacional. Tudo isso sem abrir mão de um discurso claro e didático na melhor tradição dos socialistas revolucionários.
Por essas razões pensamos que Plínio de Arruda Sampaio é quem melhor pode nos representar para assumir essa grande batalha política que se aproxima.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Construir um projeto socialista para o Brasil




Para unir a esquerda socialista e os movimentos sociais combativos apresentamos a proposta de Plínio de Arruda Sampaio como pré-candidato à Presidente da República

“Só crescemos na ousadia”
Mario Benedetti

As trabalhadoras e os trabalhadores de todo o mundo vivem um tempo de profundas definições. O planeta vive sob uma das piores crises da economia capitalista desde 1929, uma crise estrutural, acentuada pelo “padrão” neoliberal de acumulação capitalista da era das desregulamentações, à qual se soma uma gravíssima crise ambiental, cuja dimensão mais urgente é o aquecimento global.
Esta autêntica crise da civilização capitalista ameaça agravar ainda mais a situação da classe trabalhadora: os primeiros efeitos da crise já causaram um aumento de 200 milhões de miseráveis no mundo e põe em risco a manutenção de direitos conquistados em épocas menos adversas.
No Brasil, nenhum desses imensos desafios poderá ser adequadamente enfrentado se não houver articulação entre os partidos de esquerda anti-capitalistas, os movimentos sociais anti-sistêmicos, os sindicatos autônomos e classistas e a juventude engajada na luta política e cultural.
O primeiro passo para isso consiste na formulação de um programa, um projeto para o Brasil, de combate aos efeitos perversos das crises em curso. Pois a luta dos socialistas não deve se ater ao combate às formas de corrupção, por mais que o atual cenário de escândalos coloque para os socialistas a obrigação de levantar a bandeira de fim do Senado.
O programa precisa estar fundamentado em medidas macroeconômicas que configurem uma estratégia de enfrentamento da crise sem aceitação das restrições que a burguesia quer impor aos trabalhadores e sem perda de direitos e garantias já adquiridos.
Em particular, o programa tem de enfrentar as questões da dívida pública, encaminhando a agenda do Jubileu Sul sobre a rigorosa auditoria da dívida, cancelando os pagamentos ilegítimos dos juros, denunciando a baixa tributação sobre o capital, objetivando assegurar menor tributação aos trabalhadores e recursos para desenvolver as políticas públicas.
Somente combatendo o padrão de acumulação expropriador e depredador será possível enfrentar a grave crise ecológica criada pela lógica irracional do mercado.
O programa deve, também, ser um instrumento contra as tendências autoritárias, xenófobas, machistas e racistas que se alimentam do agravamento do quadro social. Mais amplamente, o programa tem de expressar uma resposta conjunta dos povos de nossa região aos agravados desafios comuns colocados pela crise de civilização que vivemos.
Alternativa anti-capitalista em 2010

Um projeto anti-capitalista, popular e socialista precisa ter seu programa forjado desde já nas lutas imediatas. Apenas dessa forma as forças populares terão condições de oferecer, em 2010, também uma alternativa de voto aos milhões de brasileiros e brasileiras.
A classe trabalhadora não pode ficar refém da falsa polarização entre a candidatura do governo Lula versus a do bloco PSDB/DEM, pois, com pequenas diferenças, seus programas têm por mote a salvação do capital diante da crise e ataques à classe trabalhadora.
Nem tampouco podemos deixar de apresentar uma alternativa de projeto à possível candidatura de Marina Silva, do PV, que não expressa uma ruptura com o projeto global de governo, que balizou os dois mandatos de Lula, e nem vai além de uma visão utópica e meramente retórica de que pode haver um desenvolvimento ambiental sustentável sob bases capitalistas. Não por acaso, o partido que escolheu para se filiar se encontra na base de governos que vão do PT ao PSDB e tem como um dos seus chefes Zequinha Sarney.

Um nome a serviço de um projeto

O povo tem o direito de conhecer formas não capitalistas de sair da crise, por isso nos propomos a construir as bases de um autêntico projeto socialista para o Brasil. O nome de Plínio de Arruda Sampaio, como pré-candidato à Presidente da República pelo PSOL, afirma essa necessidade e a possibilidade deste debate.O camarada Plínio é uma reserva moral e política da esquerda brasileira, que guarda coerência integral com os desafios da reorganização de forças no campo socialista e da classe trabalhadora neste novo momento histórico que estamos vivendo e representa, de forma coerente, um projeto de natureza anti-capitalista para o Brasil.
Além disso, é capaz de representar o perfil de uma política de alianças centrada nos partidos da frente de esquerda socialista e nos setores do movimento de massas que permanecem comprometidos com uma intervenção transformadora na luta de classes.
Enfim, a pré-candidatura de Plínio de Arruda Sampaio possui enorme potencial de aglutinação de forças políticas e sociais, avanço no debate programático e acúmulo estratégico na direção de um projeto socialista para o Brasil.
É a disposição da construção deste projeto que está o seu nome.
A partir deste manifesto propomos construir uma ampla agenda de debates e atividades com todos aqueles setores que estejam dispostos a se engajar na formulação de um novo projeto para o Brasil com as bases aqui sugeridas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Hipótese Comunista


A Hipótese Comunista

SLAVOJ ZIZEK

Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm "nada a perder além dos seus grilhões", o que nos une é o perigo de perdermos tudo: nosso meio ambiente, nosso patrimônio genético e a possibilidade de nos comunicarmos livremente
Em um magnífico texto curto, "Notas de um Publicista" - escrito em fevereiro de 1922, quando os bolcheviques, depois de, contra todas as expectativas, vencerem a guerra civil, precisaram recuar, adotaram a Nova Política Econômica e admitiram uma liberdade de ação muito mais ampla para a economia de mercado e a propriedade privada -, Lênin usa a analogia de um alpinista obrigado a retroceder em sua primeira tentativa de chegar a um novo pico para descrever o que significa o recuo num processo revolucionário, e como pode ser levado a cabo sem, oportunisticamente, trair a causa:
Imaginemos um homem que escala uma montanha muito alta, íngreme e até então inexplorada. Vamos supor que ultrapassou dificuldades e perigos inéditos, conseguindo atingir um ponto muito mais alto que qualquer um dos seus antecessores, mas que ainda não chegou ao cume. Ele se vê numa posição em que não é só difícil e perigoso prosseguir, na direção e pelo trajeto que escolheu, mas positivamente impossível.
Seria mais que natural, para um alpinista nessa posição, escreve Lênin, passar por "momentos de desânimo". E o mais provável é que esses momentos se tornassem mais frequentes e difíceis caso ele pudesse escutar as vozes dos que se encontram ao pé da montanha, e "por um telescópio, a uma distância segura, acompanham sua perigosa descida":
As vozes que vêm de baixo ressoam com alegria maldosa. Nem se preocupam em ocultá-la, riem com gosto e exclamam: "Ele vai cair de uma hora para outra! E é bem-feito para esse lunático!"
Felizmente, prossegue Lênin, nosso excursionista imaginário não tem como escutar as vozes dessas pessoas. Se ouvisse, "é provável que o deixassem nauseado, e a náusea, dizem, não ajuda ninguém a manter a lucidez mental e os pés firmes, especialmente em altitudes elevadas".
Mais adiante, Lênin aborda a situação que a recém-nascida República soviética enfrentava naquele momento:
O proletariado da Rússia atingiu uma altitude gigantesca em sua revolução, não só em comparação com 1789 [tomada da Bastilha] e 1793 [execução de Luis xvi, proclamação da República e Terror], mas também com 1871 [Comuna de Paris]. Precisamos avaliar o que fizemos e deixamos de fazer, da maneira mais desapaixonada, clara e concreta possível. Se o fizermos, conseguiremos conservar a lucidez. Não sofreremos de náusea, ilusões ou desânimo.
E conclui:
Estão perdidos os comunistas que imaginam ser possível levar a cabo uma tarefa tão memorável quanto a construção das fundações da economia socialista (especialmente num país de pequenos camponeses) sem cometer erros, sem recuos, sem numerosas alterações do que ficou incompleto ou foi feito da maneira errada. Os comunistas que não têm ilusões, que não se entregam ao desânimo e preservam sua força e flexibilidade para "começar do começo" repetidas vezes, para dar conta de uma tarefa extremamente difícil, não estão perdidos (e muito provavelmente não haverão de perecer).
Eis Lênin no que melhor tem de beckettiano, prefigurando a frase de Worstward Ho [Rumo ao Pior]: "Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor." Sua conclusão - começar do começo - deixa claro que não está falando de simplesmente reduzir a velocidade e consolidar o que foi realizado, mas de descer todo o caminho de volta até o ponto de partida: deve-se começar do começo, não do ponto alcançado na tentativa anterior. Nas palavras de Kierkegaard, um processo revolucionário não é um progresso gradual, mas um movimento repetitivo, um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes.
Onde nos encontramos hoje, depois do désastre obscur de 1989? Como em 1922, as vozes que vêm de baixo ressoam à nossa volta com alegria maldosa: "Bem-feito para esses lunáticos que tentaram impor sua visão totalitária à sociedade!" Outros tentam ocultar seu regozijo maldoso, gemem e erguem para o céu os olhos cheios de dor, como se dissessem: "Como nos faz sofrer ver nossos medos justificados! Como era nobre sua visão de criar uma sociedade justa! Nosso coração batia em uníssono com o seu, mas a razão insistia em nos dizer que seus planos só podiam acabar em miséria e em novas restrições à liberdade!" Ao mesmo tempo em que recusamos qualquer acordo com essas vozes sedutoras, precisamos definitivamente começar do começo - não para continuar a construir com base nas fundações da era revolucionária do século xx, que durou de 1917 a 1989, ou, mais precisamente, 1968 - mas descer de volta até o ponto de partida e escolher outro caminho.
Mas como? O problema definidor do marxismo ocidental tem sido a ausência de um sujeito revolucionário: como é que a classe trabalhadora não completa a sua passagem de classe em si a classe para si e não se constitui como agente revolucionário? Foi essa pergunta que forneceu a principal raison d'être para que o marxismo ocidental recorresse à psicanálise - evocada para explicar os mecanismos libidinais inconscientes que impedem o surgimento de uma consciência de classe, e que estão inscritos no próprio ser, ou na situação social, da classe trabalhadora.
Dessa maneira, a verdade da análise socioeconômica do marxismo foi posta a salvo: não havia razão para ceder terreno a teorias revisionistas envolvendo a ascensão das classes médias. Por esse mesmo motivo, o marxismo ocidental envolveu-se também na procura constante de outros, que pudessem desempenhar o papel de agente revolucionário, como um ator substituto que está a postos para ocupar o lugar da classe trabalhadora indisposta: os camponeses do Terceiro Mundo, os estudantes e intelectuais, os excluídos.
É possível, também, que essa busca desesperada pelo agente revolucionário seja a forma assumida pelo seu oposto exato: o medo de encontrá-lo, de reconhecê-lo onde ele já se agita. Esperar que outro trabalhe no nosso lugar é uma forma de racionalizar a nossa inatividade.
É contraesse pano de fundo que Alain Badiou sugeriu a reafirmação da hipótese comunista [leia na piauí-_23]. Ele escreve:
Se precisarmos abandonar essa hipótese, então não valerá mais a pena fazer nada no campo da ação coletiva. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia, nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo.
No entanto, prossegue Badiou:
Aferrar-se à Idéia, à existência da hipótese, não significa que sua primeira forma de apresentação, tendo como foco a propriedade e o Estado, precise permanecer inalterada. Na verdade, o que cabe a nós filósofos como tarefa, e até mesmo obrigação, é ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista.
É preciso tomar cuidado para não ler essas linhas à maneira kantiana, concebendo o comunismo como uma Idéia reguladora, e ressuscitando assim o espectro do "socialismo ético", que tem a igualdade como sua norma ou a priori. Em vez disso, é preciso observar a referência precisa a um conjunto de antagonismos sociais que gera a necessidade do comunismo: a boa e velha idéia marxista do comunismo não como um ideal, mas como um movimento que reage a contradições reais.
Tratar o comunismo como Idéia eterna implica que a situação que o gera não é menos eterna, e que o antagonismo ao qual o comunismo reage sempre estará presente. E a partir daí estaremos a um passo apenas de uma análise desconstrutiva do comunismo como um sonho de presença, um sonho que se alimenta da sua própria impossibilidade.
Embora seja fácil rir da idéia de Francis Fukuyama do "fim da História", hoje a maioria é fukuyamista. O capitalismo liberal-democrata é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível. Tudo que se pode fazer é torná-lo mais justo, tolerante e por aí afora. E uma pergunta simples, mas pertinente, surge aqui: se o capitalismo liberal-democrata é, senão a melhor, mas a menos pior das formas de sociedade, por que não simplesmente resignar-nos a ele de um modo maduro, ou mesmo aceitá-lo sem restrições? Por que insistir, contra ventos e marés, na hipótese comunista?
Não basta permanecer fiel à hipótese comunista: é preciso localizar na realidade histórica antagonismos que transformem o comunismo numa urgência de ordem prática. A única questão verdadeira dos dias de hoje é a seguinte: será que o capitalismo global contém antagonismos suficientemente fortes para impedir a sua reprodução infinita?
Quatro antagonismos possíveis se apresentam: a ameaça premente de catástrofe ecológica; a inadequação da propriedade privada para a chamada propriedade intelectual; as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos, especialmente no campo da engenharia genética; e por último, mas não de importância menor, as novas formas de segregação social - os novos muros e favelas. Devemos notar que existe uma diferença qualitativa entre o último, o abismo que separa os excluídos dos incluídos, e os outros três, que se referem aos domínios do que Michael Hardt e Antonio Negri chamam de commons [aquilo que é comum a todos, que é público] - a substância compartilhada do nosso ser social, cuja privatização é um ato violento ao qual se deve resistir, se necessário, pela força.
Primeiro, existem os commons da cultura, as formas imediatamente socializadas do capital cognitivo: basicamente a linguagem, nosso meio de comunicação e educação, mas também a infraestrutura compartilhada, como os transportes públicos, a eletricidade, os correios etc. Se Bill Gates conseguisse o monopólio, teríamos chegado à situação absurda em que um determinado indivíduo deteria a propriedade privada do software que constitui a trama da nossa rede básica de comunicação.
Segundo, existem os commons da natureza exterior, ameaçada pela poluição e a exploração - do petróleo às florestas, e passando pelo próprio habitat natural.
Em terceiro, os commons da natureza interior, o patrimônio biogenético da humanidade.
O que todas essas lutas têm em comum é a consciência do potencial destruidor - ao ponto da autoaniquilação da própria humanidade - se a lógica capitalista levar à apropriação desses commons. E é isso que favorece a ressurreição da noção de comunismo: ela nos permite ver a apropriação paulatina dos commons como um processo de proletarização no qual os excluídos perdem a sua própria substância; um processo que é mais uma forma de espoliação. A tarefa, hoje, é renovar a economia política da espoliação - por exemplo, a espoliação dos anônimos "trabalhadores do conhecimento" pelas empresas nas quais trabalham.
Contudo, é apenas o quarto antagonismo, o dos excluídos, que justifica o termo comunismo. Não existe nada mais privado do que uma comunidade estatal que perceba os excluídos como uma ameaça, e se preocupe em mantê-los à devida distância. Noutras palavras, nessa série de quatro antagonismos, o crucial é o que se dá entre os incluídos e os excluídos: sem ele, todos os demais perdem o gume subversivo. A ecologia se transforma num problema de desenvolvimento sustentável; a propriedade intelectual, num complexo desafio para as leis; a engenharia genética, numa questão de ordem moral.
Pode-se lutar com sinceridade pelo meio ambiente, defender uma noção mais ampla de propriedade intelectual, ou se opor ao patenteamento de genes, sem confrontar o antagonismo entre incluídos e excluídos. Mais ainda: algumas dessas lutas podem ser formuladas em termos dos incluídos ameaçados pela poluição dos excluídos. Dessa maneira, não alcançamos uma autêntica universalidade, mas só interesses "privados" no sentido kantiano.
Empresas como a Whole Foods ou a Starbucks continuam a usufruir de boa reputação entre os liberais, embora ambas combatam os sindicatos. O segredo delas é a venda de produtos com certo matiz progressista: grãos de café comprados a preços compatíveis com o "comércio ético, justo e solidário", o uso de dispendiosos veículos híbridos etc. Em suma, sem o antagonismo entre os incluídos e os excluídos, podemos nos encontrar num mundo em que Bill Gates é o maior dos filantropos, combatendo a pobreza e a doença, e Rupert Murdoch é o maior dos ambientalistas, mobilizando centenas de milhões de pessoas por meio de seu império midiático.
O que é precisoacrescentar, indo além de Kant, é que existem grupos sociais que, por conta de não ocuparem um lugar determinado na ordem "privada" da hierarquia social, surgem como representantes diretos da universalidade: são o que Jacques Rancière chama de "parte de parte alguma" do corpo social. Toda proposta política de caráter genuinamente emancipador é gerada pelo curto-circuito entre a universalidade do uso público da razão e a universalidade da "parte de parte alguma". Esse já era o sonho comunista do jovem Marx - reunir a universalidade da filosofia com a universalidade do proletariado. Desde a Grécia Antiga, temos um nome para a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico: democracia.
A noção liberal predominante da democracia também trata dos excluídos, mas de modo radicalmente diverso: concentra o foco na sua inclusão como vozes minoritárias. Todas as posições devem ser ouvidas, todos os interesses levados em conta, os direitos humanos de todos precisam ser assegurados, todos os modos de vida, todas as culturas e todas as práticas respeitadas, e assim por diante. A obsessão dessa democracia é a proteção de todos os tipos de minorias: culturais, religiosas, sexuais etc. A fórmula da democracia, aqui, consiste na negociação paciente e no compromisso.
O que se perde nela é a universalidade corporificada nos excluídos. As novas medidas políticas de caráter emancipador não serão mais produzidas por um determinado agente social, mas por uma combinação explosiva de diversos agentes. Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm "nada a perder além dos seus grilhões", o que nos une é o perigo de perdermos tudo. A ameaça é sermos reduzidos a um sujeito cartesiano abstrato e vazio, privado de todo o nosso conteúdo simbólico, com nossa base genética manipulada, vegetando num meio ambiente inabitável. Essa tríplice ameaça transforma-nos a todos em proletários -reduzidos a uma "subjetividade sem -substância", como define o Marx dos Grundrisse [esboços de crítica da economia política]. A figura da "parte de parte alguma" nos confronta com a verdade da nossa posição. E o desafio ético-político é nos reconhecermos nessa imagem.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Entrevista com Robert Kurz


Entrevista à Revista IHU On-line: Robert Kurz


ENTREVISTA À REVISTA IHU ON-LINE

Universidade do Vale do Rio dos Sinos, S. Leopoldo, Porto Alegre, Brasil


Em que sentido as teorias de Marx são importantes para se compreender o actual momento de crise no sistema financeiro global?

A importância da crítica da economia política de Marx para explicar a grande crise financeira actual evidencia-se desde logo em dois níveis, sendo um aspecto fundamental a sua derivação da forma do dinheiro [Geldform], no 1º volume de O Capital, e outro a sua análise do crédito, principalmente no 3º volume. Aqui somente posso tratar alguns pontos elementares.

A economia burguesa clássica e neoclássica parte, contra os factos, de uma pura economia de bens e de relações naturais de troca entre sujeitos do mercado. Ela abstrai do dinheiro e fala do “véu do dinheiro” sobre as “verdadeiras” transacções económicas. O dinheiro aparece aí como mero signo sem conteúdo próprio, como constructo jurídico baseado numa convenção social ou num acto estatal. Para que a economia funcione, importa apenas adequar a quantidade de dinheiro à quantidade de bens (teoria da quantidade). Para Marx, pelo contrário, o dinheiro não é o “véu” secundário, mas pressuposto e meio autotélico central da valorização capitalista. Ele é a forma geral da aparência do valor ou da mais-valia [Mehrwert] incorporado/a nas mercadorias, que precisa voltar a se transformar na forma do dinheiro, a qual já constitui o seu ponto de partida. Por isso, o dinheiro não pode ser mero signo, mas precisa ter ele próprio o carácter de mercadoria, e mesmo de mercadoria “rainha”. O dinheiro é “mercadoria geral” à parte, ou “equivalente geral”, cujo “valor de uso [Gebrauchswert]” não consiste em sua utilidade concreta, mas em sua propriedade de representar o valor abstracto ou mais-valia de todo o mundo das mercadorias. Para as transacções quotidianas, é verdade que signos monetários podem tomar o lugar da mercadoria-dinheiro propriamente dita, mas, em última instância e principalmente nas crises, o real conteúdo de valor do dinheiro precisa ser resgatado como “mercadoria régia”. Por isso, para Marx, o dinheiro não pode emancipar-se totalmente dos metais nobres, enquanto mercadoria dinheiro; isto não por causa do carácter metálico natural, mas em função do valor social ali representado de forma “concentrada”.

O crédito emana da subdivisão do capital em capital de produção ou capital-mercadoria, por um lado, e capital monetário ou capital que rende juros, por outro. A duplicação da mercadoria em “mercadoria vulgar” e dinheiro como “mercadoria régia” repete-se ao nível do capital. Na economia burguesa, não existe conexão sistemática entre teoria monetária e teoria do crédito. A noção de dinheiro como “véu” e mero signo encontra-se em contradição com a noção de capital monetário que rende juros, como uma espécie de produção sui generis de mercadorias. Grosso modo, faz-se de conta que a “indústria financeira” seria uma produção de mercadorias tão real quanto, por exemplo, a indústria automóvel. O juro parece ser uma forma independente de mais-valia. Marx, pelo contrário, mostra o caráter ilusório dessa idéia. Ele mostra que o crédito, ou capital que rende juros, é apenas uma forma derivada, sem formação própria de valor. O juro é o preço da função capitalista do crédito, preço este que precisa ser subtraído da mais-valia social da produção real de mercadorias. Na estatística burguesa, pelo contrário, os “produtos” do capital monetário são somados ao produto social, com o que se distorce as verdadeiras relações de valor.

No século XX, o dinheiro e todo o sistema monetário aparentemente emanciparam-se em definitivo do ouro como mercadoria monetária real, processo concluído com o abandono da convertibilidade do dólar em ouro em 1973. No período subseqüente, em correspondência, o capital monetário também se desacoplou cada vez mais da produção real de mercadorias. O inflar do crédito não só gerou formidáveis montanhas de dívidas, que sempre precisavam ser “rodadas”, mas ainda adquiriu a forma de circulação independente de títulos financeiros (acções, imobiliário, derivados), onde se criaram valores fictícios de dimensões astronómicas. Na óptica positivista, tratava-se simplesmente de “factos” que pareciam fundamentar-se a si próprios. Até mesmo teóricos de esquerda abandonaram explícita ou implicitamente a teoria de Marx do dinheiro e do crédito, porque na aparência ela estava refutada empiricamente.

Esse período de 35 anos desde o fim da convertibilidade do dólar em ouro, que é um período histórico breve, encerrou-se, entretanto, em 2008. Agora se mostra o verdadeiro carácter desse desenvolvimento. Num processo secular, o capital, em função dos crescentes custos prévios da produção cientificizada, ficou cada vez mais dependente do crédito, como antecipação de mais-valia real futura. As bolhas financeiras sempre excessivamente infladas nas últimas décadas rebentaram definitivamente a conexão entre “capital fictício” e produção real de mais-valia; a antecipação da mais-valia futura jamais poderá ser resgatada. Essa contradição amadureceu e descarrega-se como crise financeira global. Isto destrói não só a ilusão de um crescimento “financeiramente induzido”, mas também a ilusão do dinheiro como mero signo. O ouro já sofreu uma dramática valorização face a todas as moedas. Mas a remonetarização do ouro não é possível, porque as potências de produção alcançadas historicamente já não podem ser representadas como “riqueza abstracta” (Marx) na forma da mais-valia. A desvalorização do dinheiro corresponde à desvalorização da massa das mercadorias. Por outras palavras: os recursos materiais e os agregados técnico-científicos, as capacidades e as necessidades humanas já não podem ser comprimidas nas formas básicas do capital. Ou, na expressão de Marx nos Grundrisse, “desaba o modo de produção baseado no valor de troca”; manifesta-se a “desvalorização do valor” enquanto limite histórico da valorização do capital.

Nessa situação, o Estado aparece como lender of last ressort [financiador de último recurso]. Para a teoria burguesa, o Estado não é o outro lado, o lado político da relação de capital, mas uma “instância extra-económica”. Também na esquerda, a ilusão do Estado tem uma longa tradição. Marx não chegou a concluir a formulação da sua teoria do Estado. Mas já nos escritos da sua fase inicial ele criticou a ilusão política-estatal como “falsa comunidade”. Em sua teoria do crédito, no 3º volume de O Capital, o crédito do Estado é definido como forma especial de “capital fictício”, que continua dependente da real valorização do capital. Na verdade, há muito tempo que se envergonhou a ilusão estatal, ilusão esta que esteve em alta após a grande época de crises na primeira metade do século XX. No Ocidente, a regulação estatal keynesiana e o crescimento induzido pela expansão do crédito estatal fracassaram no início dos anos 80, por causa da inflação desmedida. No Leste, o capitalismo de Estado soviético da “modernização atrasada” ficou devedor e entrou em colapso no final dos anos 80. Estas já eram formas de aparência da “desvalorização do valor” histórica. Na viragem neoliberal, a intervenção do Estado, supostamente “extra-económica”, foi responsabilizada pelo dilema e substituída por um radicalismo de mercado. Essa viragem, porém, não suplantou o limite interno da valorização, mas, mediante uma política de desregulação e de excesso de oferta monetária pelos bancos centrais, apenas abriu as comportas para uma expansão sem precedentes do crédito privado e da economia das bolhas financeiras.

Depois de também esta ilusão ter estourado e de o mercado ter falhado grandiosamente, pretende-se de repente que o Estado seja de novo o salvador. Só que o problema não pode mais ser resolvido com novo excesso de oferta monetária dos bancos centrais estatais através duma redução conjugada da taxa de juros. Pois esse tipo de excesso de oferta monetária sempre ainda pressupõe a ficção de uma “cobertura” por processos reais de valorização que já se tornou ilusória. Os bancos comerciais já só conseguem depositar nos bancos centrais “garantias” que deixaram de o ser, porque em grande parte são títulos duvidosos. Isto impede que se inflem novas bolhas financeiras da forma habitual. O colapso dos créditos hipotecários somente foi o catalisador de um processo de desvalorização de todo o capital financeiro, que vai muito além. Por isso, agora, a crise é elevada ao nível da “última instância”, isto é, das próprias finanças do Estado. Só que o Estado não é um demiurgo independente das leis da valorização do capital. Já no ano fiscal passado, ainda antes da recente crise dramática, a dívida pública dos Estados Unidos triplicou; e, no caso de se invocarem as garantias estatais concedidas em todo o mundo, o resultado somente pode ser uma grande crise das finanças estatais. O Estado não pode estancar a desvalorização, mas apenas administrá-la; ou em forma de deflação, se quiser manter seu próprio endividamento limitado, ou em forma de inflação, caso comece a imprimir notas sem qualquer “cobertura”. Nesta situação nova na História, talvez até ocorram processos deflacionários e inflacionários em paralelo.



O que representa, na actual crise, a teoria marxista do trabalho abstracto como substância do capital?

A economia burguesa clássica baseava-se, ainda, numa teoria do “valor do trabalho”. O valor devia, em última instância, ser determinado pelo trabalho humano. Acontece que essa teoria do “valor do trabalho” era acrítica e inconsequente. A teoria de Marx da determinação do valor e da mais-valia pelo trabalho abstracto é fundamentalmente diferente. O conceito de trabalho abstracto é entendido de forma crítica e estritamente negativa, como “abstracção real” da produção concreta de bens. No processo de produção e circulação do capital, a actividade produtiva é reduzida, em sua forma social, à delapidação [Vernutzung] abstracta de energia humana, ou aplicação [Anwendung] de força de trabalho abstracta como “dispêndio [Verausgabung] de nervo, músculo, cérebro” (Marx), com total indiferença perante o conteúdo concreto desse dispêndio. A massa de trabalho abstracto passado surge como massa de valor social e como “objectividade do valor” [Wertgegenständlichkeit] dos produtos. Na “valorização do valor”, o que interessa não é a massa de valor em si, mas apenas a massa de mais-valia, que é distribuída aos diferentes capitais pelo mecanismo da concorrência. A valorização como fim em si mesmo transforma em fim em si mesmo também o trabalho abstracto que lhe dá origem, trabalho esse que, como dispêndio de energia humana abstracta, constitui a substância do capital.

A economia neoclássica burguesa abandonou a teoria clássica do “valor do trabalho”. O valor foi reduzido ao preço, sendo entendido não mais como substância comum das mercadorias, mas como mera função na inter-relação das mercadorias. Esta redução corresponde na filosofia burguesa à passagem do “conceito de substância” para o “conceito de função”. Pretendia-se eliminar o problema da substância, transformando-o numa relação funcional vazia. A “matematização” dos “modelos” neoclássicos baseia-se nessa transformação do valor numa relação estritamente funcional. Com isto, a teoria do valor foi adaptada à teoria do dinheiro como mero “signo”. Essa “teoria da circulação” funcional do valor, no espaço da língua alemã, de certo modo também conseguiu entrar numa assim chamada “nova leitura de Marx”, na qual a teoria crítica de Marx do “valor do trabalho” era rejeitada como “naturalista” ou “substancialista”, negando-se o carácter de mercadoria do dinheiro.

Como na economia burguesa, assim se exclui, por princípio, um limite interno absoluto da valorização. A redução do valor a uma relação funcional torna-o aparentemente atemporal e eternamente regenerável. Marx, pelo contrário, mostrou que o desenvolvimento capitalista contém uma autocontradição elementar. Por um lado, a energia humana abstracta constitui a substância real do capital; por outro lado, a concorrência obriga ao constante desenvolvimento da força produtiva, a qual torna supérflua a força de trabalho humana e solapa a substância do valor. Até à segunda revolução industrial do fordismo, esse processo secular de desvalorização das mercadorias podia ser compensado por meio do mecanismo da “mais-valia relativa”, analisado por Marx: pelo desenvolvimento da força produtiva, o valor da mercadoria “força de trabalho” é reduzido à escala social e a participação relativa da mais-valia na massa total de valor aumenta. Essa participação relativa aumentada da mais-valia, porém, está relacionada com a quantidade de força de trabalho produtivamente utilizável. Marx não chegou a concluir sua teoria da crise, mas implicitamente ela faz inferir que o desenvolvimento da força produtiva chega a um ponto em que a quantidade de força de trabalho produtivamente utilizável se reduz a tal ponto que a massa de mais-valia absoluta cai. Então, mesmo o aumento da mais-valia relativa por força de trabalho de nada serve. Esse ponto é atingido com a 3ª revolução industrial da microeletrónica. O mecanismo histórico de compensação da mais-valia relativa se extingue, a massa real absoluta de mais-valia cai e a “desvalorização do valor” leva à “dessubstancialização do capital”.

Este é o motivo pelo qual, no período anterior, se podia simular mais valorização somente por meio de bolhas financeiras desprovidas de substância. Quando estas estouram, entretanto, não se atinge novo “ponto zero”, a partir do qual a valorização real possa recomeçar. Ao invés, o capitalismo é reduzido às suas reais condições de valorização, cujo standard de produtividade é irreversível. Essa teoria substancial da crise, que fala de um limite interno absoluto do capital, muitas vezes foi criticada como “tecnológica” justamente pela esquerda. Mas não se trata, no caso, do aspecto técnico, mas do efeito da tecnologia sobre as condições da valorização. Marx não formulou uma teoria funcional do valor “atemporal”, mas sim a teoria de um desenvolvimento historicamente dinâmico do capital, como movimento da substância real mediado pela crescente aplicação dos potenciais técnico-científicos e que não pode ser infinitamente prolongado.

Sobre isto ainda cabe fazer duas observações. Em primeiro lugar, as categorias de Marx são categorias reais de uma lógica da sociedade como um todo, que está na base das aparências empíricas, mas não pode ser descrita de forma directamente empírica. Isto não apenas porque o capital se move empiricamente em formas de mediação complexas e contraditórias, mas porque a real agregação da substância de valor social sempre se apresenta apenas em retrospectiva. A estatística burguesa nunca capta a real massa de valor ou mais-valia, mas apenas os fluxos superficiais de mercadoria e dinheiro, os quais produzem uma imagem distorcida. Por isso os crashes também não são previstos, mas apresentam-se de forma eruptiva, quando a lógica de base irrompe a empiria, como parece ser agora o caso. Porém, as curvas caóticas e os saltos descontrolados, por exemplo dos câmbios ou dos índices da bolsa, necessariamente precisam ser atribuídos à natureza não-empírica do capital e à sua evolução substancial. Isto não está ao alcance de uma teoria categorialmente imanente ou afirmativa, que só consegue ficar correndo atrás dos fenómenos imprevisíveis. Em segundo lugar, o limite da valorização é estritamente objectivo. Aquilo que “desaba” por entre as curvas é a capacidade de o capital reproduzir-se socialmente. Mas o que não desaba por si mesmo são as formas de consciência ou “formas de pensamento objectivas” constituídas pelo capital (Marx). Ao se alcançar o limite histórico do capitalismo, surge por isso uma tensão colossal entre a impossibilidade de continuar uma valorização real e a mentalidade generalizada que interiorizou as condições capitalistas de vida e não quer nem consegue imaginar outra coisa senão viver dentro dessas formas. A difícil tarefa está em resolver essa tensão no processo de resistência contra a administração da crise, sob pena de o capitalismo desembocar numa catástrofe mundial. Para isto não está preparada uma esquerda que se adaptou cada vez mais ao desenvolvimento capitalista.



Quais as consequências da crise financeira para o emprego global?


Desde o início da 3ª revolução industrial nos anos 80, os novos potenciais de racionalização eliminaram a força de trabalho industrial do processo produtivo numa escala nunca vista antes. Em consequência, de ciclo em ciclo, aumentou em massa o desemprego e o subemprego à escala global. O reverso da medalha foi a simulação da valorização pelo inflar do “capital fictício”. Diferentemente de épocas anteriores do capitalismo, entretanto, não ocorreu uma desvalorização rápida do capital monetário sem substância, para dar lugar a uma nova acumulação real. Em vez disso, por falta de novas possibilidades de valorização real, iniciou-se uma imbricação sem precedentes históricos entre a economia das bolhas financeiras e a conjuntura. Os “valores fictícios” não permaneceram no céu financeiro, mas têm sido transferidos para a aparente economia real há muito tempo e em medida crescente. Assim surgiu o famoso crescimento “financeiramente induzido”, que parecia alavancar as leis económicas do capitalismo e permitiu uma onda de conjunturas em alta baseadas no deficit, que na realidade não tinham base. Embora o desemprego em massa aumentasse, ele era mantido em limites relativos porque, no quadro das conjunturas baseadas no deficit, criaram-se em certa medida “postos de trabalhos fictícios”, que se alimentavam das bolhas financeiras sem substância.

Para se compreender essa evolução, é importante a distinção de Marx entre “trabalho produtivo” e “improdutivo”. Todas as actividades no contexto da forma capitalista são trabalho abstracto, que é representado em dinheiro. Mas nem todo trabalho abstracto é produtivo em termos capitalistas, nem contribui para a massa de mais-valia social real. Certas funções da relação de capital são em si improdutivas e “custos mortos”. Mas também a actividade produtiva industrial pode tornar-se improdutiva em sentido capitalista, quando ela excede a capacidade de produção de mais-valia real (“capacidades excedentárias”). Todos os resultados do trabalho abstracto assumem a forma de mercadoria enquanto “objectividades da circulação” [“Zirkulationsgegenständlichkeit”]. Ao conseguirem um preço, eles assumem uma parte da massa de mais-valia social, independentemente de a sua produção ter contribuído ou não para essa massa. Esse carácter social global [gesamtgesellschaftlich] da produção de valor e de mais-valia não fica muito claro em Marx, razão pela qual surgiu o famoso problema da transformação do valor em preço. Entretanto, esse problema se resolve quando a massa de mais-valia social não se baseia numa soma de valores “individuais” das mercadorias, mas representa uma massa de substancia social total não subsumível a nível empresarial; a sua quantidade só é revelada pela concorrência no nível da circulação. Isto não torna irrelevante o problema da substância, mas nada tem a ver com uma substância de valor da mercadoria individual.

Que significa isto para a era da economia das bolhas financeiras? A queda da massa de mais-valia social real foi aparentemente mascarada pela “mais-valia fictícia” do sistema de crédito inflado. Dessa forma, gerou-se uma ocupação improdutiva que ultrapassava em muito a capacidade de produção de mais-valia real. Em primeiro lugar, junto com o inchar da “indústria financeira”, inchou de forma desproporcionada o emprego nesse sector, emprego esse que não produz valor algum, apenas intermedeia transacções financeiras. Em segundo lugar, criou-se um sector igualmente desproporcionado de serviços pessoais improdutivos em termos capitalistas, de indústria publicitária, indústria da informação e dos media, indústria do desporto e da cultura. Justamente nesses sectores, a ausência de substância fez-se notar, por um lado, como remuneração astronomicamente excessiva de uma pequena elite de estrelas e, por outro, como precarização em forma de freelancers, pseudo-autónomos e empresários da miséria. Em terceiro lugar, a conjuntura do deficit global forçou o emprego de uma “aristocracia operária” nas indústrias de exportação (produção automóvel, máquinas), a qual era igualmente improdutiva porque não se baseava em lucros e salários de produção de mais-valia real, mas era alimentada pelas bolhas financeiras.

Na mesma medida em que o estouro das bolhas financeiras reduz o capitalismo às suas reais condições de valorização, também boa parte do emprego improdutivo terá de cair. A massa de mais-valia real é muito pequena para que a “objectividade de circulação [Zirkulationsgegenständlichkeit]” desses sectores inflados se possa representar como “objectividade de valor [Wertgegenständlichkeit]”. A depressão global que é de esperar levará de roldão não só grande parte dos “senhores do universo” do capitalismo financeiro, mas também boa parte das precárias micro-empresas prestadoras de serviços, dos freelancers, dos assalariados mal pagos e dos trabalhadores temporários daqueles dependentes, assim como empregos na indústria de exportação. O sistema do trabalho abstracto leva a si próprio ao absurdo; e o capitalismo global minoritário sofre o seu Waterloo, mesmo que ninguém queira tomar conhecimento, embora todos o saibam intuitivamente.



Em que consiste o peso do capitalismo na sociedade de hoje, caracterizada por relações virtuais, trabalho imaterial e autonomia?

Os conceitos mencionados provêm todos da ideologia pós-moderna, que desde o começo acompanhou e deu expressão ao capitalismo financeiro neoliberal do “capital fictício” inflado. Já em fins dos anos 1970, em seu livro A troca simbólica e a morte, Baudrillard explicitou a relação com a economia ao estabelecer o “capital fictício” como novo princípio de realidade. Também Derrida, num texto sobre “dinheiro falso”, afirmou a virtualidade do capital. A rejeição radical pós-moderna do “essencialismo” ou “substancialismo” corresponde à tentativa de o capital iludir o seu próprio problema, de certa maneira “aristotélico”, da substância. O culto da “virtualidade” contagiou todos os domínios da vida, até mesmo as relações pessoais. A redução do valor a uma relação funcional levou à paradoxal “absolutização da relatividade”, que no entendimento vulgar se manifestou como “arbitrariedade”. Ao virtualismo económico correspondia o virtualismo tecnológico da internet, que se transformou na “second life” das vidas individualizadas e abstractas de bloggers, incapazes de se organizar e de resistir na realidade.

A esquerda pós-moderna é a órfã desse desenvolvimento. Ela reduziu a luta social a um nível virtual e simbólico. O “pós-operaismo” de Antonio Negri exprime o cerne dessa ideologia. O fetichismo objectivo do capital é negado e dissolvido, crise incluída, em relações subjectivas de vontade. O lugar da crítica radical do trabalho abstracto e da forma abstracta do valor é tomado pela ilusão de uma “autovalorização autónoma” [autovalorisazzione] de freelancers de um “trabalho imaterial”. É um conceito nonsense, porque todo o trabalho abstracto, mesmo que não se manifeste em produtos materiais, é “dispêndio de nervo, músculo, cérebro”. Só que o “trabalho do conhecimento”, improdutivo em termos capitalistas, justamente nada contribui para a massa de mais-valia social real. A “autonomia” dessa forma específica de trabalho abstracto é ilusória, porque continua dependente do mercado mundial. Trata-se da ilusão de uma nova classe média que já não tem qualquer base. Quando o capitalismo é reconduzido às suas reais condições de valorização, extingue-se também a “autovalorização” do trabalho abstracto nos sectores do “conhecimento” e da comunicação mediática. A vergonha da economia das bolhas financeiras é também a vergonha da esquerda pós-moderna e do seu “anti-substancialismo” ideológico, que gostaria de declarar qualquer manifestação da vida como “valorização”. Esta ilusão não tem base económica, mas sim “existencialista”, recorrendo a Heidegger. Ao estourar a economia das bolhas financeiras, a “heideggerização” pós-moderna da esquerda corre o risco de desembocar em sentimentos nacionalistas e anti-semitas.

Original INTERVIEW MIT DER BRASILIANISCHEN INTERNET-ZEITSCHRIFT „IHU ON-LINE“ em www.exit-online.org

Publicado na REVISTA IHU ON-LINE nº 278, 20.10.2008, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, S. Leopoldo, Porto Alegre, Brasil, como o título O vexame da economia da bolha financeira é também o vexame da esquerda pós-moderna

sábado, 18 de julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Meta da semana: Olhar o mundo sem o óculos vulgar das fórmulas mal digeridas...

terça-feira, 14 de julho de 2009


O MTST, assim, reivindica do Governo Federal:



1 – Desapropriação de terrenos ocupados pelo MTST. Em especial o terreno da ocupação Zumbi dos Palmares em Sumaré, que está ameaçado de despejo.



2 – Regularização fundiária do assentamento Anita Garibaldi para mais de 2000 mil famílias.



3 - Agilidade burocrática para as famílias do Acampamento Carlos Lamarca, a mais de 5 anos esperando resposta do governo.



4 – Participação ativa do Governo Federal nas negociações do MTST em todas as regiões e Estados onde o MTST está presente.


Contatos no local:
Guilherme:78103196
Juarez:78103197
Vanessa: 93292852

Como chegar:
Av. Francisco Prestes Maia, 1501 - Centro, São Bernardo do Campo - SP, 09770-000.
Link:



Coletivo de Comunicação - MTST
www.mtst.org

MTST: acorrentados no prédio de Lula

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Que linda noche para fumarse un porrito, tomar un cuartel e instaurar el maoismo en la Argentina

terça-feira, 28 de abril de 2009

25 Perguntas a Gilmar Mendes


25 Perguntas a Gilmar Mendes...
(fonte: internet...)
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1.O sr. sabe algo sobre o "assassinato" de Andréa Paula Pedroso Wonsoski, jornalista que denunciou o seu irmão, Chico Mendes, por compra de votos em Diamantino, no Mato Grosso?
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2.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2000, quando o sr. era advogado-geral da União?
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3.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2004, quando o sr. já era ministro do Supremo Tribunal Federal?
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4.Quantas vezes o sr. acompanhou ministros de Fernando Henrique Cardoso a Diamantino, para inauguração de obras?
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5.O sr. tem relações com o Grupo Bertin, condenado em novembro de 2007 por formação de cartel? Qual a natureza dessa relação?
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6.Quantos contratos sem licitação recebeu o Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o sr. é acionista, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso?
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7.O sr. considera ética a sanção, em primeiro de abril de 2002, de lei que autorizava a prefeitura de Diamantino a reverter o dinheiro pago em tributos pela Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino, da qual o sr. é um dos donos, em descontos para os alunos?
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8.O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?
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9.O sr. tem algo a dizer acerca da afirmação de Daniel Dantas, de que só o preocupavam as primeiras instâncias da justiça, já que no STF ele teria"facilidades" ?
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10.O segundo habeas corpus que o sr. concedeu a Daniel Dantas foi posterior à apresentação de um vídeo que documentava uma tentativa de suborno a um policial federal. O sr. não considera uma ação continuada de flagrante de suborno uma obstrução de justiça que requer prisão preventiva?
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11.Sendo negativa a resposta, para que serve o artigo 312 do Código de Processo Penal segundo a opinião do sr.?
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12.Por que o sr. se empenhou no afastamento do Dr. Paulo Lacerda da ABIN?
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13..Por que o sr. acusou a ABIN de grampeá-lo e até hoje não apresentou uma única prova? A presunção de inocência só vale em certos casos?
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14.Qual a resposta do sr. à objeção de que o seu tratamento do caso Dantas contraria claramente a *súmula 691*do próprio STF?
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15..O sr. conhece alguma democracia no mundo em que a Suprema Corte legisle sobre o uso de algemas?
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16.O sr. conhece alguma Suprema Corte do planeta que haja concedido à mesma pessoa dois habeas corpus em menos de 48 horas?
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17.Por que o sr. disse que o deputado Raul Jungmann foi acusado"escandalosamente" antes de que qualquer documentação fosse apresentada?
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18.O sr. afirmou que iria chamar Lula "às falas". O sr. acredita que essa é uma forma adequada de se dirigir ao Presidente da República? O sr. conhece alguma democracia onde o Presidente da Suprema Corte chame o Presidente da República "às falas"?
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19..O sr. tem alguma idéia de por que a Desembargadora Suzana Camargo, depois de fazer uma acusação gravíssima – e sem provas – ao Juiz Fausto de Sanctis, pediu que a "esquecessem" ?
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20..É verdade que o sr., quando era Advogado-Geral da União, depois de derrotado no Judiciário na questão da demarcação das terras indígenas, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem as decisões judiciais?
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21.Quais são as suas relações com o site Consultor Jurídico? O sr. tem ciência das relações entre a empresa de consultoria Dublê, de propriedade de Márcio Chaer, com a BrT?
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22.É correta a informação publicada pela Revista Época no dia22/04/2002, na página 40, de que a chefia da então Advocacia Geral da União, ou seja, o sr., pagou R$ 32.400,00 ao Instituto Brasiliense de Direito Público - do qual o sr. mesmo é um dos proprietários - para que seus subordinados lá fizessem cursos? O sr. considera isso ético?
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23.O sr. mantém a afirmação de que o sistema judiciário brasileiro é um "manicômio"?
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24.Por que o sr. se opôs à investigação das contas de Paulo Maluf no exterior?
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25.Já apareceu alguma prova do grampo que o sr. e o Senador Demóstenes denunciaram? Não há nenhum áudio, nada?

sábado, 25 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Joaquim Barbosa:" Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso"



O STF reprova Joaquim Barbosa pois é uma torre de cristal perto do céu e distante do povo. Reprovamos o ministro-coronel Gilmar Mendes e a retaliação do STF ao ministro Joaquim Barbosa. Estamos com Joaquim Barbosa

a seguir trecho das pérolas:
Gilmar Mendes: Vossa Excelência não tem condição de dar lição nenhuma a ninguém aqui.

Joaquim Barbosa: E nem Vossa Excelência. Vossa Excelência me respeite. Vossa Excelência não tem condição alguma. Vossa excelência está destruindo a Justiça deste país e vem agora dar lição de moral em mim! Saia à rua, ministro Gilmar. Saia à rua, faço o que eu faço.

Gilmar: Eu estou na rua.

Joaquim: Vossa Excelência não está na rua não. Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso. Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. O senhor respeite.

Gilmar: Vossa excelência me respeite. Eu te respeito.

Joaquim: Eu digo a mesma coisa.

Pequena nota sobre o método marxista

“Na análise das formas econômicas não podem servir o microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos. Para a sociedade burguesa, a forma celular da economia é a forma da mercadoria do produto do trabalho ou a forma valor da mercadoria. Para o leigo, a análise parece perder-se em pedantismo. Trata-se, efetivamente, de pedantismo, mas daquele que se ocupa a anatomia microscópica “[Capital. Livro I - Prefácio da Primeira Edição]

“Como a Economia Política gosta de robinsonadas, aparece primeiro Robinson Crusoé em sua ilha. Moderado por origem, ele precisa satisfazer, entretanto, as várias necessidades e, por isso, tende a executar trabalhos úteis de diferentes espécies, fazer ferramentas, fabricar móveis, domesticar lhamas, pescar, caçar etc. Não falamos aqui das orações e coisas semelhantes, porque nosso Robinson se compraz nelas e considera tais atividades como recreio. Apesar da diversidade de suas funções produtivas ele sabe que elas são apenas diferentes formas da atividade do mesmo Robinson, portanto, somente modos diferente de trabalho humano. A própria necessidade o obriga a distribuir seu tempo minuciosamente entre suas diferentes funções. Se uma ocupa mais, outra menos espaço na sua atividade total depende da maior ou menor dificuldade que se tem de vencer para conseguir o efeito útil pretendido. A experiência lhe ensina isso, e nosso Robinson, que salvou do naufrágio o relógio, o livro razão, tinta e caneta, começa, como bom inglês, logo a escriturar a si mesmo. Seu inventário contém uma relação dos objetos de uso que ele possui, das diversas operações requeridas para sua produção e , finalmente, do tempo de trabalho que em média lhe custa determinadas quantidades desses diferentes produtos. Todas as relações entre Robinson e as coisas que formam sua riqueza, por ele mesmo criada, são aqui tão simples e transparentes que até o Sr. M. Wirth deveria entendê-las, sem extraordinário esforço intelectual.” [C. Cap.I L. I P. 73-74]

“A verdade é sempre dura para as ternas almas liberais”[Jean-Paul Sartre]

Os modernos economistas ingleses de tradição liberal partiam da premissa de um “estado de natureza” do homem. O homem produzido pelo desenvolvimento das forças produtivas e pelo esfacelamento do tecido social feudal foi transformado em “homo economicus”, que, por sua vez, foi transformado em ponto de partida da história. Os economistas de tradição liberal justificavam o resultado histórico a partir do próprio resultado histórico, caíram em tautologias reducionistas, e utilizavam o Sr. Robinson Crusoé como a figura deste homem em estado natural. A exposição da construção teórica liberal não apresenta as categorias robinsonadas de maneira casual, senão, por uma questão metodológica de apresentar as relações sociais a partir da relação do indivíduo e por apresentar a análise econômica a partir de uma “visão caótica do conjunto”. Os economistas liberais estabeleceram como ponto de partida de análise o concreto, o complexo, rumo ao abstrato , no sentido das relações mais simples. Marx diz:

“O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento como processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação.”

Os economistas que transformaram a humanidade em um coletivo de Robinsons Crusoés, entendem que o complexo(concreto) é o resultado direto do simples(abstrato). Por isso que transformam o resultado histórico em ponto de partida. Segundo Marx:

“Parece correto começar pelo real e o concreto, pelo que se supõe efetivo; por exemplo, na economia, partir da população, que constitui a base e o sujeito do ato social da produção no seu conjunto. Contudo, a um exame mais atento, tal revela-se falso. A população é uma abstração quando, por exemplo, deixamos de lado as classes de que se compõe. Por sua vez, estas classes serão uma palavra oca se ignorarmos os elementos em que se baseiam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes últimos supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preços, etc.” [Introdução à contribuição Para a Crítica da Economia Política – 3. Método da Economia Política/ Karl Marx]


Marx apresenta um segundo método analítico, refutando o instrumental-teórico liberal. O ponto de partida da construção analítica do projeto de economia marxista apresenta-se como o momento do processo de abstração (Momente des Abstraktionsprozesses) de uma totalidade social específica, rumo a sua própria superfície, ou seja, o destino analítico deve ser o concreto pensado. Marx nos diz:

“Eis por que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que, partindo de si mesmo se concentra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movimenta por si mesmo; ao passo que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é, para o pensamento, apenas a maneira de se apropriar do concreto” [Introdução à contribuição Para a Crítica da Economia Política – 3. Método da Economia Política/ Karl Marx]


Diz Rosdolsky de maneira magistral sobre o método do Projeto de Crítica da
Economia Política, no início do capítulo 29 de sua clássica obra:

“‘Assim como o sistema da economia burguesa se desenvolveu gradativamente, o mesmo ocorre com a negação desse sistema, que é seu último resultado’. Porém , quão longo, árduo e fatigante revelou-se esse caminho! Foi necessário investigar e expor a história do capital até chegar às suas formas concretas. Mais ainda: foi necessário decifrar passo a passo as formas mistificadas nas quais ele se manifesta, para reencontrar seu verdadeiro conteúdo. Desse ponto de vista, o sistema da economia burguesa constitui ao mesmo tempo uma história da ‘auto-alienação’ humana. Não se tratava de descobrir o caráter alienado das categorias econômicas, mas sim de entender como essa ‘inversão de sujeito e objeto’, própria do modo de produção capitalista, era necessária e condicionada por causas reais. O jovem Marx já se havia proposto essas tarefas nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Mas só em O Capital elas seriam conduzidas até o fim.”


Esta apropriação da realidade concreta proposta na metodologia-analítica defendida por Marx tem por objetivo primordial o entendimento da totalidade social a partir da compreensão das engrenagens internas da grande máquina social capitalista, enquanto a economia vulgar possui um caráter descritivo da aparência do modo de produção capitalista, e um entendimento alienado e fetichista em descrever a expressão fenomênica da engrenagem do capital.